sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Espelho e a Estátua de Vênus

Um espelho vivia num canto da loja de um antiquário, num ponto de onde dominava a porta de entrada, que levava ao andar superior.
Nele se refletiam os movimentos da loja: quem entrava, as negociações pela sala até o fim do dia, o sobe-e-desce nos degraus. Refletiam-se também todas as coisas: a porta que atendia e despedia, o relógio que contabilizava o tempo, os vasos que enfeitavam a mesa de centro, um aparador próximo da janela, todo o rico mobiliário de países diversos e objetos raros.
Desde que se instalara na casa, dizia o espelho para si mesmo:

_ Que vida venturosa e plena, minha vida de espelho!

_ Como podes te contentar com uma vida assim?
Não preferirias ser uma janela que se abre para o mundo lá de fora? Ou possuir o poder da porta, que controla e recebe aqueles que entram nesta casa? _ questionavam os outros objetos.
_ Para quê? Se tudo o que a janela vê eu reflito e existe em mim da mesma maneira? Não percebeis que tenho esse dom de reproduzir tudo o que há em minha volta?
_ Não será seu mundo refletido frágil e frio? Se refletes a luz que vem pela janela, também se apaga teu espírito quando ela se fecha, quando a noite cai e as lâmpadas da casa são desligadas!
_ Frio? De que dizeis? Sou considerado pela minha sinceridade. De outra forma, por que viriam a mim as pessoas para consultar sobre suas aparências?
_ Ah, as aparências. Vejo que te contentas em repetir do mundo a superfície. Pois só terás um dom sublime quando refletires aquilo que não se pode ver, que não esteja na superfície que se falseia _ retrucou a janela.
_ Filosofias de janela _ desdenhou o espelho. _ Se é pela aparência que as coisas se fazem desejáveis...

Considerava assim, o espelho, sua vida, até o dia em que a porta abriu passagem para um novo objeto. Era uma estátua de mármore da deusa Vênus, que foi colocada no primeiro patamar da escadaria.

Nada que fora exposto naquela sala tocara tão profundamente a alma do espelho, que se calou num amor tão pasmado, que se esqueceu de tudo o mais que o cercava, voltando-se o quanto podia para aquele certo ponto da escada.

_ O que é isso que reflito agora, que não é tua beleza esculpida, mas que não cabe em mim mesmo? Eu, espelho de um mundo inteiro, não posso conter em mim o que não vejo, nem compreendo!


Viu-se a estátua de Vênus descrita em nuances suaves na face do espelho enamorado. E dele ouvia tantas palavras doces, que por fim também se declarou.


_ Eu, que era esta pedra de fria beleza, descobri um insuspeito calor em meu ser, tão impróprio às pedras, que nem parece estar em mim mesma, mas envolve-me como o hálito de uma morna manhã.

_ Nem que me quebrasse em mil pedaços, poderia refletir-te tantas vezes quanto desejo. E mesmo que expulsasse de mim tudo aquilo que um dia refleti, que limpasse de minha memória todos os segundos que a outras coisas me entreguei, seria impossível conter este amor. E como desejaria ter a face mais límpida só para refletir-te fielmente e exclusivamente, pois tudo o mais tornou-se indigno de conviver contigo em meu espírito.
_ Se antes a escuridão da noite não me incomodava, agora peço ao relógio que estenda as horas do dia, reservando a ti a luz que dá sentido a minha própria existência. E à noite, ansiosa, aguardo nem que seja uma nesga de luar, que se transforma na alegria de ver-me guardada em teus sonhos, enquanto dormes.
_ Ah, mas esse amor tão intenso me enche também de temor _ confessou-lhe o espelho.
_ Jamais duvides do que sinto.
_ Não duvido. Sinto que és tu que sopras em mim este calor de vida. Não poderia nascer de nada que antes havia em meu âmago, pois vejo que tudo era frio e sem sentido.
_ O que temes, então? _ insistiu a deusa.
_ Separa-nos uma escada, estás distante.
_ O que é essa distância? Se ao mirar-te vejo-me dentro de ti, plena de alegria, é porque em ti eu estou verdadeiramente _ considerou a estátua.
_ Mas nosso universo trama contra nosso amor. Já vi tantos que chegaram e partiram. E tua beleza há de ser notada. Vão levar-te de mim. E a dor de perder-te faz-me tremer.
_ Tolo, não busques no incerto futuro razão para sofreres agora. Tu, que tens esse dom maravilhoso de captar-me e possuir-me com um único olhar! Como te invejo! Volta tua face e vê-me, goza o momento que nos une!
E assim viveram seus intensos dias.

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Veio porém a tarde em que a estátua de Vênus foi retirada do salão e a face aturdida do espelho embaçou-se de uma tristeza que transbordou de sua moldura. Tudo o que a janela podia ver, lá fora, turvou-se de um cinza amargurado. E todas as pessoas da cidade cobriram-se de capas e roupas de frio, pois o inverno chegou ao mundo através do espelho.


_ Então, onde está aquele mundo venturoso e pleno? _ perguntou-lhe o relógio, depois de perder as contas das horas espelhadas no silêncio.

_ Tudo o que passara por mim era reflexo efêmero. Só agora, perdido e resgatado pela experiência do amor, me reconheço. Nada perdi, pois de fato eu não era nada: apenas emoldurava as coisas que refletia. Agora, sim, tenho esse amor, que pintou em meu espírito a indelével imagem daquela que amo.

Foi então que se abriu na face do espelho uma janela, por onde se contemplava um dia claro. E, como uma bênção, o sol inundava de luz um jardim, onde Vênus se banhava em primavera.


Quem ama extremamente
deixa de viver em si
e vive no que ama.
Platão

Fábulas do Amor Distante
Marco Túlio Costa

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